<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[🐦‍🔥 Flagrare // Fiction that burns.: 🇧🇷 Histórias]]></title><description><![CDATA[Contos e outras histórias, originais em português ou traduzidas do inglês.]]></description><link>https://www.flagrare.com.br/s/historias</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!2D51!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F623139a9-4293-4edb-93b5-9eeecbf31802_1280x1280.png</url><title>🐦‍🔥 Flagrare // Fiction that burns.: 🇧🇷 Histórias</title><link>https://www.flagrare.com.br/s/historias</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sun, 17 May 2026 07:23:36 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.flagrare.com.br/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Flagrare 🔥]]></copyright><language><![CDATA[en]]></language><webMaster><![CDATA[flagrare@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[flagrare@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Flagrare 🔥]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Flagrare 🔥]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[flagrare@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[flagrare@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Flagrare 🔥]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[Um milhão de vozes]]></title><description><![CDATA[Conto: Quando o pre&#231;o &#233; a humanidade.]]></description><link>https://www.flagrare.com.br/p/um-milhao-de-vozes</link><guid isPermaLink="false">https://www.flagrare.com.br/p/um-milhao-de-vozes</guid><dc:creator><![CDATA[Flagrare 🔥]]></dc:creator><pubDate>Sun, 23 Nov 2025 18:07:42 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1e87291f-5a95-4122-96f1-257bd45f8728_1944x2592.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Tinha duas coisas na maleta, uma delas estava carregada.</p><p>H&#225; muito havia se acostumado &#224; venda. A primeira visita ao cemit&#233;rio prometia a absoluta escurid&#227;o. Depois da terceira tudo o que encontrou foi a apatia. De alguma forma parara de fazer sentido.</p><p>Caminhava pela rua se orientando pelos murm&#250;rios. &#201; impressionante como o c&#233;rebro era capaz de se adaptar, bastava p&#244;r um p&#233; ap&#243;s o outro e seguir os ouvidos, sem confiar completamente neles. Ali&#225;s, enquanto se concentrasse na lembran&#231;a do beijo na testa que deixara pra tr&#225;s ao fechar a porta, tudo estaria bem. S&#243; precisava se concentrar na mem&#243;ria e n&#227;o na m&#250;sica.</p><p>Soube imediatamente que havia chegado. Haviam lhe avisado que o cheiro seria inconfund&#237;vel. O que lhe fez ter certeza foi o gosto p&#250;trido que escorreu pela garganta.</p><p>&#8212; Nnnf hhjh jhj. &#8212; O grunhido ves&#226;nico arrancou-o do transe.</p><p>De alguma forma seu c&#233;rebro traduzira automaticamente. Faltavam-lhes ferramentas, e a todos os outros pra ser honesto, para entender como &#233; que eles conseguiam fazer aquilo.</p><p><em>O que &#233; seu pre&#231;o?</em></p><p><em>&#8212; </em>Est&#225; na maleta.</p><p>Alan estendeu o objeto no escuro-al&#233;m-da-venda. Os pelos que ro&#231;aram-lhe a m&#227;o &#8212; que mais pareciam cerdas &#8212; fizeram-lhe arrepiar ao toque frio dos dedos compridos.</p><p>Ouviu o clique da maleta e um sussurro de quarenta vozes. O cora&#231;&#227;o parou de bater por alguns segundos, como tamb&#233;m lhe disseram que aconteceria. Cada segundo pareceu se arrastar.</p><p>O segundo clique carregou o al&#237;vio. Sua moeda de troca valia.</p><p>Um ru&#237;do raspado e viscoso se seguiu. Um passo ap&#243;s o outro, sempre em frente. Alan caminhou por cinco minutos, pelo que pareceu uma sequ&#234;ncia de estalos ocos e crepita&#231;&#245;es cartilaginosas.</p><p>N&#227;o soube por quantas portas passou at&#233; chegar no &#225;trio. De l&#225;, uma can&#231;&#227;o desafinada &#8212; como se duas composi&#231;&#245;es em ritmos diferentes &#8212; se sobrepunha. Um coro de ninar infernal carregado pelas cordas de uma disson&#226;ncia angelical.</p><p>Ent&#227;o, uma for&#231;a invis&#237;vel o impediu de se mover.</p><p>&#8212; Nnngghrakjz. &#8212; O idioma lamacento era o mesmo, mas o tom dessa voz era afiado e sublime como uma navalha de fio que ro&#231;ou seus ouvidos e pesco&#231;o.</p><p><em>O que &#233; sua vida?</em></p><p>Concentrou-se em Lia. Sustentou um sorriso p&#225;lido. A mem&#243;ria da pequena dormindo antes de ele sair era tudo que tinha a oferecer. Ser&#225; que at&#233; o fim se lembraria do porqu&#234; havia come&#231;ado?</p><p>A venda nunca lhe permitiu saber se o abra&#231;o e&#243;lico que se desfizera era parte da criatura ou da sua imagina&#231;&#227;o. Mas ele soube que era sinal para seguir em frente.</p><p>Ou melhor, para <em>baixo</em>.</p><p>Por incr&#237;vel que pare&#231;a, um bom sinal. Se sua jornada fosse ao topo, temia que as cartas j&#225; estivessem marcadas.</p><p>Abaixo de seus p&#233;s encontrou o primeiro degrau. Ele podia sentir o gosto da podrid&#227;o. Cada passo ao fundo era uma aposta. O coro se tornou mais evidente, mais visceral, como se cada voz ventriloquasse cada m&#250;sculo do seu corpo. Ficava cada vez mais dif&#237;cil se concentrar. O &#250;nico consolo &#233; que as cordas desvaneciam com a ascend&#234;ncia ao abismo.</p><p>Quando os p&#233;s tocaram o fundo, houve um estalar seco, como se pisasse em peda&#231;os fr&#225;geis de humanidade.</p><p>A voz que dessa vez lhe recebeu era invariavelmente humana.</p><p>&#8212; Bem-vindo ao cassino. &#8212; Um chiado fino, como um sibilo, mas ainda assim humano. &#8212; Deposite suas apostas no ch&#227;o &#224; sua frente.</p><p>A m&#250;sica era infernal. Se concentrar na mem&#243;ria dela se tornara insuport&#225;vel. Precisava conseguir. Era tudo por ela.</p><p>Alan cuidadosamente se ajoelhou e abriu a maleta. Retirou de l&#225; de dentro um peda&#231;o de papel plastificado quadrado e depositou ao ch&#227;o na sua frente.</p><p>&#8212; Voc&#234; tem uma bela filha. &#8212; Alan conseguiu sentir o sorriso malicioso por tr&#225;s das palavras.</p><p>Como &#233; que essas coisas conseguiram o que conseguiram t&#227;o r&#225;pido?</p><p>&#8212; Qual &#233; sua compensa&#231;&#227;o?</p><p>&#8212; Um milh&#227;o de horas. Na conta dela. &#8212; Apontou para o ch&#227;o, ainda de venda.</p><p>A criatura riu abertamente. Um coro de infinitas vozes.</p><p>&#8212; Muito bem, pode tirar sua venda se voc&#234; est&#225; pronto.</p><p>Lentamente Alan desfez a venda.</p><p>O que viu em seguida jamais pode se lembrar ou se esquecer. Caminhou para casa com a maleta em m&#227;os, sem a foto. <br>Em sua mente, apenas sangue e sede.</p><p>Antes de abrir a porta, disparou a arma.</p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.flagrare.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">&#128038;&#8205;&#128293; Flagrare // Fiction that burns &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada por leitores. Para receber os posts mais novos e apoiar meu trabalho, considere se inscrever e se tornar um membro gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscribe"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Fumaça]]></title><description><![CDATA[Conto: Quando ouvir pode significar salva&#231;&#227;o. Uma queda entre mundos, silenciosa.]]></description><link>https://www.flagrare.com.br/p/fumaca</link><guid isPermaLink="false">https://www.flagrare.com.br/p/fumaca</guid><dc:creator><![CDATA[Flagrare 🔥]]></dc:creator><pubDate>Sun, 21 Sep 2025 20:42:19 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b15d192e-f75d-45bc-b3da-06d65aa87d57_3072x1710.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8212; Eu matei o Lucas. &#8212; As pernas dele balan&#231;avam despreocupadamente, de maneira quase displicente, ignorando a altura assustadora na qual nos encontr&#225;vamos. Sua voz soara como se uma afirma&#231;&#227;o daquela fosse algo normal e n&#227;o, no m&#237;nimo, <em>perturbador.</em></p><p>&#8212; O que? Como assim? Do que voc&#234; est&#225; falando? &#8212; Perguntei desconcertado. Aquela calma dele era inquietante.</p><p>&#8212; Voc&#234; sabe o que eu fiz ontem? Voc&#234; tem ideia do que eu estava fazendo? &#8212; Ele indagou olhando para frente, com um olhar perdido. A maior parte do seu rosto estava coberta por um capuz, mas ainda assim eu podia perceber que ele estava apreensivo pelo modo como mordia os l&#225;bios. &#8212; N&#227;o, &#233; claro que n&#227;o sabe. Como ele poderia saber, idiota?! &#8212; Eu sabia que aquilo n&#227;o era mais uma pergunta, mas uma afirma&#231;&#227;o. As m&#227;os dele tremiam. Naquele ponto, eu n&#227;o sabia se de frio da noite que adentrava ou de alguma outra coisa.</p><p>&#8212; Cara, vai com calma. Comece do come&#231;o. O que aconteceu? &#8212; Respondi preocupado. At&#233; aquele momento eu n&#227;o entendia por que est&#225;vamos ali, justo ali e, para dizer a verdade, eu tinha medo de saber. O c&#233;u arroxeado engolia impiedosamente o pouco do tom acobreado que os &#250;ltimos minutos de luz solar conferiam &#224; medida que convers&#225;vamos.</p><p>Ele retirou as duas m&#227;os dos bolsos da blusa de frio. Numa delas segurava um ma&#231;o de cigarros e, na outra, um isqueiro prateado que eu conhecia muito bem. Ele fez sinal com a m&#227;o, como quem oferecia um. Recusei. Com algum custo ele acendeu o cigarro &#8212; ventava muito &#8212; e ap&#243;s uma longa tragada, ele prosseguiu com a conversa, parecendo retirar as palavras do fundo dos pulm&#245;es, expulsando-as com a fuma&#231;a.</p><p>&#8212; Ontem eu passei a noite toda chorando. Mas n&#227;o chorando um pouquinho como voc&#234; deve estar imaginando. &#8212; Disse concentrado, dando outro trago no cigarro. N&#227;o havia al&#237;vio naquelas palavras, apenas ang&#250;stia. Muita ang&#250;stia. Eu n&#227;o imaginava nada. &#8212; Eu chorei pateticamente, deitado no ch&#227;o frio do meu quarto escuro, implorando por ajuda. Pela ajuda de <em>qualquer um</em>. Uma cena deplor&#225;vel, para dizer a verdade. Uma cena realmente digna de vergonha.</p><p>&#8212; Por que voc&#234; estava chorando? Por que voc&#234; est&#225; me contando isso? &#8212; Aquela quietude dele, aquela serenidade... algo naquela atitude me incomodava. Me incomodava muito.</p><p>&#8212; Voc&#234; n&#227;o &#233; uma pessoa muito paciente, n&#227;o &#233; mesmo? N&#227;o, nunca foi. E ainda assim, voc&#234; &#233; a &#250;nica pessoa no mundo que sinto que poderia me entender... de alguma forma. Se &#233; que eu posso ser entendido. &#8211; A brasa queimava lentamente na ponta do cigarro entre os dedos dele e, naquele momento, era praticamente a &#250;nica luz que podia se ver. O sil&#234;ncio era absoluto e incomum. &#8211; A &#250;nica pessoa que poderia me ouvir. Ouvir de verdade. Mas voc&#234; acha que eu gosto de te contar isso? N&#227;o, n&#227;o gosto. Me sinto rid&#237;culo em confessar uma coisa dessas, mas esse &#233; quem eu sou. &#8212; Ele deu uma pequena gargalhada sarc&#225;stica. &#8211; Mas se voc&#234; quer entender, tem que ouvir a hist&#243;ria do meu jeito.</p><p>&#8212; Tudo bem, ent&#227;o continue. N&#227;o foi minha inten&#231;&#227;o aborrecer-lhe. Me desculpe. &#8211; Justifiquei. Ele assentiu. O ar ia ficando pesado em torno de n&#243;s. Ele respirava lentamente. Eu n&#227;o entendia os rumos que aquela conversa tomaria.</p><p>&#8212; Me diz uma coisa... quando voc&#234; presencia um acidente com v&#237;timas, qual a sua rea&#231;&#227;o natural?</p><p>&#8212; Bom... eu acho que eu corro para auxiliar as v&#237;timas ou chamo ajuda, sei l&#225;. &#8212; Respondi intrigado.</p><p>&#8212; E voc&#234; acha que todas as pessoas fariam isso? &#8212; Ele perguntou brincando com o cigarro entre os dedos. Seu tom de voz era s&#233;rio.</p><p>&#8212; Bom, n&#227;o sei, mas acho que a maioria...</p><p>&#8212; Deixe-me fazer outra pergunta... ao que voc&#234; estava conectado alguns minutos atr&#225;s, quando ainda usava o telefone? &#8212; Disse apontando para o objeto em minhas m&#227;os. &#8212; Pode abri-lo e me mostrar?</p><p>Instintivamente, desbloqueei o telefone, exibindo a &#250;ltima tela que eu visitara: uma rede social de fotos. Na sequ&#234;ncia havia duas imagens. Uma de um rapaz de bra&#231;os abertos, sem camisa, na frente de uma paisagem montanhosa, e a outra de um gato enrolado em um len&#231;ol branco.</p><p>&#8212; O que voc&#234; v&#234;? &#8212; Disse sem nem mesmo olhar para o aparelho em minhas m&#227;os.</p><p>&#8212; Uma foto de um gato em um len&#231;ol e um amigo em uma viagem para os montes...</p><p>&#8212; O que voc&#234; v&#234;? &#8212; Ele repetiu a pergunta. Eu n&#227;o sabia o que ele queria dizer. Diante do meu sil&#234;ncio, ele continuou. &#8212; Entre em algum perfil. Qualquer perfil, por favor.</p><p>Entrei no perfil da foto de gato e era o <em>user</em> de uma amiga. Seu <em>grid</em> de fotos continha v&#225;rias imagens com um grau de est&#233;tica impressionante, combinando tons de cores, fundos e padr&#245;es de forma. <em>Selfies </em>eram a maioria, mas sempre respeitando essa <em>padroniza&#231;&#227;o.</em> Rolei mais um pouco o perfil e percebi que os tons iam se alterando, mas sem nunca deixarem de combinar. Era um verdadeiro <em>trabalho art&#237;stico.</em></p><p>&#8212; O que voc&#234; v&#234;? &#8212; Ele insistiu na pergunta. Dessa vez eu tinha uma resposta.</p><p>&#8212; Um perfil muito bonito e organizado. Ela realmente se dedica muito a tirar fotos com <em>est&#233;tica.</em></p><p>&#8212; Entendo. Posso pedir que abra outro aplicativo? Pode abrir aquele de mensagens curtas? &#8212; Assenti com um murm&#250;rio e, enquanto eu procurava o app, ele deu outra tragada profunda no cigarro. J&#225; estava completamente escuro e eu sentia frio. Imaginei que ele n&#227;o, pois a fuma&#231;a lhe aquecia por dentro. &#8212; E agora, o que voc&#234; v&#234;?</p><p>&#8212; Eu n&#227;o estou entendendo o que isso tem a ver com qualquer coisa, mas... &#8212; Comentei j&#225; sem paci&#234;ncia. &#8212; Ahn, algumas postagens sobre not&#237;cias, coisas aleat&#243;rias sobre o dia de algu&#233;m, piadas, imagens com piadas, mais gatinhos, algu&#233;m bravo, algu&#233;m reclamando... n&#227;o sei o que voc&#234; quer dizer.</p><p>Ele se levantou perigosamente na borda e soltou a fuma&#231;a lentamente, formando um anel em torno de si, enquanto girava, parado no mesmo lugar.</p><p>&#8212; E, ainda assim, voc&#234; n&#227;o consegue ver. NINGU&#201;M NUNCA CONSEGUE. &#8212; Ele estava verdadeiramente nervoso. Eu n&#227;o entendia onde ele queria chegar com aquilo tudo. Fiquei ansioso ao v&#234;-lo em p&#233; daquela forma, temendo que ele ca&#237;sse.</p><p>&#8212; Ei, se acalme. Senta aqui de novo. Me explica com calma o que voc&#234; est&#225; pensando... &#8212; Implorei.</p><p>&#8212; N&#227;o vou me assentar. Sabe, &#233; uma t&#234;nue linha. &#8212; Ele abriu os bra&#231;os e simulou andar em uma corda bamba bem no lim&#237;trofe da borda. Meu cora&#231;&#227;o acelerou &#8212; Um equil&#237;brio sutil. E ainda assim, ningu&#233;m percebe. Ningu&#233;m nota. Diga-me, sobre o acidente que lhe perguntei no come&#231;o, e se voc&#234; pudesse evit&#225;-lo, voc&#234; o faria?</p><p>&#8212; Sim, claro que evitaria &#8212; Respondi apreensivo. Ele voltou a ficar apenas parado, com os olhos vidrados no horizonte escuro. Meu ritmo card&#237;aco desacelerara.</p><p>&#8212; Claro, claro que evitaria. E se salvar essas pessoas custasse a sua vida? Soa bem heroico n&#233;? Deixe-me reformular: E se salvar essas pessoas custasse o movimento de todos os seus membros e uma vida inteira tetrapl&#233;gico e voc&#234; soubesse desse risco? E se salvar algu&#233;m custasse a melhor parte de voc&#234;? Ainda assim voc&#234; salvaria? &#8212; Ele abafou uma risada baixa. Me senti sem resposta e ele continuou. &#8212; Voc&#234; j&#225; n&#227;o sabe mais, n&#227;o &#233; mesmo?</p><p>O cigarro em suas m&#227;os chegava ao fim. Ele arremessou a ponta do cigarro para o escuro e retirou mais um do ma&#231;o, acendendo logo em seguida. Ap&#243;s uma longa tragada, ele se agachou ao meu lado, com olhar cada vez mais distante e, ao mesmo tempo, mais <em>cheio</em>. Eu estava ainda mais impaciente e queria explodir.</p><p>&#8212; Voc&#234; est&#225; me enrolando e n&#227;o vejo essa conversa chegando em lugar algum. Me responde as coisas que eu perguntei. &#8212; Eu disse rispidamente. N&#227;o aguentava mais essa enrola&#231;&#227;o.</p><p>&#8212; Sim, claro. Eu imaginei que voc&#234; acabaria dizendo isso. Voc&#234; est&#225; impaciente. &#8212; Ele completou sem esbo&#231;ar qualquer rea&#231;&#227;o ao meu nervosismo. &#8212; Nesse mesmo momento, voc&#234; deve estar pensando em alguma de suas <em>conex&#245;es</em>. Algu&#233;m que voc&#234; tem que responder. Algu&#233;m que deveria ter respondido. Um post que marcou para ler depois. Qualquer coisa assim. Voc&#234;, como todo mundo, vive em dois mundos. O real, e esse novo mundo. Voc&#234; est&#225; aqui e l&#225;. Mas onde voc&#234; est&#225; realmente conectado?</p><p>&#8212; Voc&#234; &#233; um desses que insinua que essas conex&#245;es n&#227;o s&#227;o reais? &#8212; Perguntei indignado. Eu conhecera tanta gente interessante e legal nos &#250;ltimos anos usando esses recursos. Tantos amigos.</p><p>&#8212; Me diga voc&#234;, s&#227;o? &#8212; Ele respondeu calmamente, tragando mais uma vez o cigarro. Eu n&#227;o sabia como aquela coisa ainda n&#227;o o havia matado.</p><p>&#8212; Claro, eu tenho &#243;timos amigos que conheci nesse que voc&#234; chama de "novo mundo"! Muita gente legal mesmo! &#8212; Respondi de uma vez. A frase soou mais boba do que eu esperava quando disse em voz alta.</p><p>&#8212; Sim, voc&#234; conhece. Se voc&#234; pudesse evitar aquele acidente, e n&#227;o o fizesse, seria sua culpa dele ter acontecido? &#8212; Ele perguntou inesperadamente. De novo aquele assunto sem sentido.</p><p>&#8212; &#201; claro que n&#227;o, acidentes acontecem...</p><p>&#8212; Mas voc&#234; n&#227;o se sentiria nem um pouco respons&#225;vel se pudesse ter evitado v&#225;rias fatalidades e decidiu n&#227;o o fazer?</p><p>&#8212; Eu... eu n&#227;o sei.</p><p>&#8212; Deixe-me mudar um pouco a perspectiva. Voc&#234; est&#225; num bar e v&#234; um homem drogando a bebida de uma garota. O que voc&#234; faz? &#8212; Ele respirou fundo e bateu na ponta do cigarro para a brasa cair. A noite ia ficando cada vez mais fria. &#8212; Eu n&#227;o quero que voc&#234; responda essa pergunta. Eu quero apenas que voc&#234; pense. &#192;s vezes, n&#227;o fazer nada &#233; o mesmo que fazer.</p><p>&#8212; Eu n&#227;o entendo a conex&#227;o de todos esses assuntos. &#8211; Resmunguei confuso.</p><p>&#8212; Veja bem, mesmo agora, eu consegui te entreter o suficiente para que voc&#234; desistisse de saber por que eu estava num estado decadente na noite passada. Mesmo agora, voc&#234; tem dificuldades em se importar. Diga-me, esses seus amigos, voc&#234; disse que os conhece. Mas conhece mesmo? Numa entrevista de emprego, voc&#234; mostra todas as caracter&#237;sticas ou seleciona algumas?</p><p>&#8212; Seleciono as melhores. Aquelas que eu acho que v&#227;o me fazer ganhar o cargo. &#8212; Respondi sem pensar. Meu celular vibrou e a tela se iluminou naquela escurid&#227;o. Era uma mensagem de um amigo que eu conhecera na rede de mensagens curtas, anos antes. Instintivamente desbloqueei o celular e li o que ela dizia. Respondi rapidamente e bloqueei o celular novamente.</p><p>&#8212; Posso pedir que voc&#234; leia o conte&#250;do dessa mensagem em voz alta? &#8212; Ele solicitou, ainda agachado. Eu n&#227;o sabia como ele aguentava ficar naquela posi&#231;&#227;o. Parecia t&#227;o dolorosa. Ali&#225;s, se havia algo no rosto dele, esse algo parecia dor. Eu n&#227;o reparara, mas havia um cansa&#231;o grande em suas express&#245;es. Algum sofrimento desconhecido que o marcara profundamente. Marcas que pareciam ter surgido h&#225; muito tempo. Ele sempre fora assim? Eu n&#227;o conseguia me lembrar. De repente eu me senti mal por, talvez, n&#227;o ter percebido antes.</p><p>&#8212; &#201; s&#243; uma mensagem de um amigo meu sobre uma s&#233;rie que assistimos em comum... Ele est&#225; reclamando.</p><p>&#8212; E ainda assim, foi o suficiente para quebrar nossa conex&#227;o por alguns segundos. Foi o suficiente para voc&#234; desatar completamente de onde estamos, se transportar para l&#225; e respond&#234;-lo. Esse novo mundo sobrep&#245;e o real, muitas vezes. Quantas dessas vezes eu estive conversando com algu&#233;m e sentindo que essa pessoa n&#227;o estava l&#225;, e nunca esteve?!</p><p>&#8212; Voc&#234; continua distinguindo um do outro chamando isso de real... como se a pessoa do outro lado n&#227;o fosse real tamb&#233;m.</p><p>&#8212; E &#233;? Voc&#234; realmente conhece essa pessoa? Digo, <em>real</em>mente. &#8212; O vento passara a soprar em outra dire&#231;&#227;o e a fuma&#231;a do cigarro dele agora me incomodava. Percebendo, ele se levantou e me contornou sem que eu pedisse. &#8212; Quando uma pessoa monta um perfil, ela realmente monta com todas as suas caracter&#237;sticas? Boas e ruins? Ser&#225; que ela vai ser apreciada se ela fizer isso? &#8212; Antes que eu pudesse responder, ele continuou. &#8212; Quantas vezes algu&#233;m se importou com os problemas de outra pessoa na sua <em>timeline</em>? Quanta aten&#231;&#227;o um pequeno coment&#225;rio de tristeza ganha? Quanta relev&#226;ncia um v&#237;deo de gatinho tem? As pessoas n&#227;o est&#227;o preparadas para se envolver. N&#227;o est&#227;o preparadas para mergulhar. N&#227;o est&#227;o preparadas para serem reais. Elas t&#234;m medo do real. O real &#233; dispendioso. O real exige. O real demanda que elas sejam reais, e se envolver com os problemas reais de algu&#233;m, &#233; demais.</p><p>O cigarro estava no fim. Ele deu uma &#250;ltima tragada e, ao contr&#225;rio do outro, ele o apagou e colocou a ponta que sobrara no bolso da cal&#231;a. Minhas pernas tremiam de impaci&#234;ncia e eu segurava o celular com for&#231;a.</p><p>&#8212; As pessoas usam esses dispositivos o tempo todo. Sempre que sobra um tempo livre, entre uma tarefa e outra, elas se ocupam com eles. &#201; como se houvesse uma urg&#234;ncia em tomar o sil&#234;ncio. Como se fosse dif&#237;cil demais parar. As pessoas est&#227;o sempre sozinhas, entediadas e tristes e &#233; esse o rem&#233;dio que elas usam para isso. Distra&#231;&#227;o. Olhar para dentro &#233; ser real, e isso &#233; dif&#237;cil. &#201; mais f&#225;cil compartilhar piadas. &#8212; Ele ainda estava de p&#233; ao meu lado e pegou o isqueiro do bolso. O objeto prateado reluziu quando ele acendeu uma chama. &#8212; A chama que existe dentro de n&#243;s &#233; poderosa, mas ela queima quando voc&#234; a alimenta demais. Olhar para dentro arde. Ser real queima.</p><p>&#8212; E de repente essa conversa se tornou completamente filos&#243;fica e uma chatice &#8212; Respondi de uma vez. Embora pudesse soar insens&#237;vel, aquilo me incomodava.</p><p>&#8212; Sim claro. Vamos ser pr&#225;ticos. &#8212; Ele apagou a chama fechou a tampa do isqueiro. &#8212; Ontem eu chorei como um imbecil, porque basicamente eu estou completamente sozinho. Porque n&#227;o aguento mais essas vozes na minha cabe&#231;a, me dizendo que sou um lixo.</p><p>&#8212; E por que voc&#234; n&#227;o fala com ningu&#233;m? Por que n&#227;o pede ajuda? &#8212; Perguntei de forma inocente. Ele riu. Sua risada sarc&#225;stica era tamb&#233;m de dor, e l&#225;grimas brotaram de seus olhos.</p><p>&#8212; Eu pedi. Quantas vezes eu pedi. Cada coment&#225;rio nesse novo mundo, cada postagem, cada palavra era um pedido de socorro. Na maioria das vezes, era ignorado. Quantas foram as ocasi&#245;es que recebi um "tenta reclamar menos" ou um "voc&#234; reclama demais, minha vida &#233; bem pior que a sua e eu n&#227;o reclamo". Eu n&#227;o sabia que eu estava numa competi&#231;&#227;o. Devo dizer que, vez ou outra, algu&#233;m atendia. &#192;s vezes &#233; apenas fuma&#231;a. Voc&#234; solta, e incomoda as pessoas. O que realmente importa, &#233; o que voc&#234; faz com a ponta. Mas &#233; um fardo meu e eu sei que eu tinha que carregar. E ao mesmo tempo...</p><p>&#8212; Mas voc&#234; reclama demais mesmo. Est&#225; o tempo todo mal, o tempo todo triste... &#8212; Ele riu mais uma vez. De dor.</p><p>&#8212; Esse. Sou. Eu. Esse &#233; o meu eu real. Esse &#233; quem voc&#234; vai conhecer aqui fora, e l&#225; dentro. Esse sou o eu que ningu&#233;m quer, que incomoda, que n&#227;o agrada. &#8212; As l&#225;grimas dele eram pesadas. Eu me sentia mal com aquilo tudo. &#8212; E ainda assim, voc&#234; acredita que voc&#234; realmente conhece as pessoas. Voc&#234; defende que elas s&#227;o reais. Ningu&#233;m est&#225; preparado para o real.</p><p>Ele retirou o isqueiro do bolso mais uma vez, acendeu e travou sua v&#225;lvula, mantendo&#8212;o queimando o g&#225;s.</p><p>&#8212; O acidente que voc&#234; n&#227;o impediu. A garota que voc&#234; n&#227;o ajudou. &#8212; Ele se aproximou ainda mais da borda. &#8212; &#192;s vezes n&#227;o fazer nada &#233; o mesmo que fazer. Viver na borda &#233; t&#227;o dif&#237;cil... voc&#234; pode cair a qualquer momento. Voc&#234; pede socorro com l&#225;grimas nos olhos. Voc&#234; est&#225; em desespero e n&#227;o sabe o que fazer. Algumas pessoas que passam ignoram. Claro, n&#227;o &#233; problema delas. Se algo acontecer, foi uma decis&#227;o sua. Outras passam e lhe seguram os ombros, sussurrando palavras doces. Voc&#234; se recomp&#245;e, por um momento, e quando v&#234;, est&#225; de novo na beirada. &#8212; A chama do isqueiro bruxuleava com timidez, com seu bra&#231;o estendido na borda. Ele sorriu. Era um sorriso assustador. &#8212; Outras, n&#227;o satisfeitas, lhe d&#227;o um pequeno empurr&#227;o. Ou mesmo um sopro. N&#227;o &#233; problema delas, mas incomoda.</p><p>&#8212; Cara, eu n&#227;o sei o que dizer... me deixe te ajudar. O que houve com voc&#234;? &#8212; Respondi apreensivo. &#8212; Sente-se aqui, por favor. Voc&#234; est&#225; muito na beirada.</p><p>&#8212; Agora voc&#234; realmente pode ver. Fico feliz que realmente tenha visto, no fim. Voc&#234; realmente era a &#250;nica pessoa com quem eu podia conversar. A &#250;nica que entenderia.</p><p>Ele segurava o isqueiro com as duas m&#227;os, tr&#234;mulas, numa posi&#231;&#227;o parecida como se orasse para uma for&#231;a maior.</p><p>&#8212; Eu matei o Lucas. N&#227;o restou nada dele nesse novo mundo. &#8212; Ele atirou o isqueiro aceso no escuro. A chama fraca pintava, como um borr&#227;o, todo aquele escuro de laranja, que ia desvanecendo a medida em que o objeto ca&#237;a. &#8212; E quando se &#233; real nos dois mundos e isso acontece, n&#227;o resta nada, em nenhum.</p><p>Ele saltou para o vazio. Senti meu cora&#231;&#227;o parar na boca.</p><p>&#8212; LUCAS! LUCAAAAAAAS! &#8212; Gritei, com todo o ar que eu tinha nos pulm&#245;es. Minha voz se perdeu no vazio da noite escura.</p><p>Eu ainda segurava o telefone firmemente em minhas m&#227;os, agora desligado.</p><p>Eu matei Lucas. Enquanto eu ca&#237;a, ainda podia ouvir meu nome reverberando pelo ar da noite fria.</p><p>Eu estava sozinho, como sempre estivera.</p><div><hr></div><blockquote><p>Esta hist&#243;ria foi publicada originalmente em portugu&#234;s (BR) em dezembro de 2016 no WattPad. </p><p>&#8220;Fuma&#231;a&#8221; foi meu primeiro conto, inspirado em uma miniss&#233;rie de TV de 2016, <a href="https://www.imdb.com/title/tt5499448/">&#8220;This New World&#8221;.</a></p></blockquote><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.flagrare.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#128038;&#8205;&#128293; Flagrare // Fiction that burns.! 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Ap&#243;s semanas sendo ocupado por festas e drogados, que se esparramavam pelos cantos, meu espa&#231;o sagrado estava livre novamente. Aquele local era realmente um para&#237;so em meio ao inferno daquela faculdade. Um achado, onde eu costumava contar estrelas para fugir da realidade.</p><p>Sentei-me sobre uma das pedras que se erguiam diante das &#225;rvores, com os joelhos elevados. Olhei para cima e comecei a contar os astros. Passei um bom tempo ali. Duzentas ou trezentas, eu j&#225; havia perdido a conta. Meus pensamentos estavam a mil. Pousei minha cabe&#231;a entre as pernas e fechei os olhos. A semana estava consideravelmente dif&#237;cil at&#233; aquele ponto e, quando havia percebido, j&#225; desabara completamente em l&#225;grimas. Saquei o celular e, decidido a acalmar a mente, abri o Wattpad em busca de uma leitura que me distra&#237;sse. Quando finalmente decidi por um conto de fantasia, as l&#225;grimas j&#225; haviam cessado e minha mente mergulhara completamente naquele mundo.</p><p>J&#225; estava ali h&#225; algum tempo quando tive a impress&#227;o de uma voz feminina, calma e serena, chamar pelo meu nome. Foi s&#243; quando o escutei sendo repetido pela segunda vez que de fato acreditei nos meus ouvidos e, desconfiado, ergui a cabe&#231;a para procurar quem me chamava. N&#227;o havia ningu&#233;m. Por mais que eu apurasse os olhos, n&#227;o enxergava nada, e ainda assim, minha audi&#231;&#227;o captava um terceiro chamado. As palavras vinham da floresta e, embora deveras suspeitoso, adentrei a mata &#250;mida.</p><p>A floresta era escura. Embora n&#227;o pudesse ver nada al&#233;m de galhos e ra&#237;zes, podia distinguir claramente os sons de pequenos animais no escuro. A voz continuava a chamar pelo meu nome e eu seguia em frente, sem olhar pra tr&#225;s. Ap&#243;s um tempo, desconfiei ouvir o som de &#225;gua corrente - imposs&#237;vel, n&#227;o existia um rio dentro da universidade - e ele se tornava cada vez mais alto. Minhas vestes pesavam e eu comecei a me perguntar por que carregava tantos equipamentos - equipamentos?</p><p>O c&#233;u era vis&#237;vel durante todo o trajeto, mas para meu infort&#250;nio, n&#227;o havia lua para me guiar, o que me fizera trope&#231;ar em toda sorte de coisas uma por&#231;&#227;o de vezes. A voz, suave como o vento, aquecia-me por dentro, e parecia vir de algo muito antigo e que, de certa forma, eu j&#225; conhecia. Ap&#243;s alguns minutos, alcancei uma clareira, cortada por um riacho escuro - como aquilo era poss&#237;vel? No meio do riacho, em uma ilhota, uma &#225;rvore imensa, de galhos frondosos, parecia tocar o c&#233;u, e emanava um brilho verde v&#237;vido. Atra&#237;do pela voz, que parecia reverberar com o movimento dos galhos &#224; brisa noturna, me aproximei, incr&#233;dulo.</p><p>Atravessei o regato utilizando as grossas ra&#237;zes da &#225;rvore ancestral e alcancei seu vistoso tronco. As folhas emanavam uma luz verde misteriosa e o lugar tinha um cheiro desconhecido - mas que era estranhamente familiar.</p><p>- Ent&#227;o voc&#234; finalmente decidiu atender ao meu chamado. - Me assustei com a clareza da voz que vinha da &#225;rvore, num tom misto de mal&#237;cia e ironia.</p><p>Ap&#243;s me recuperar, procurei a origem da voz, e n&#227;o pude encontrar. Sulcos profundos no tronco da &#225;rvore pareciam formar um rosto antigo - aquilo era loucura.</p><p>- Voc&#234; n&#227;o est&#225; ficando maluco. - Estremeci com a possibilidade de algu&#233;m adivinhar o que eu estava pensando - De fato, sou eu mesma que estou falando.</p><p>- Voc&#234;? A &#225;rvore? - Perguntei descrente.</p><p>- Voc&#234; demorou. Temi que talvez voc&#234; chegasse tarde demais, mas eu sabia que voc&#234; viria. Afinal, eu s&#243; podia esperar.</p><p>- Do que voc&#234; est&#225; falando? Como isso &#233; poss&#237;vel? O que diabos &#233; voc&#234;?</p><p>- Eu sou Aldaband, a &#225;rvore do mundo. Meus galhos ostentam as ramifica&#231;&#245;es futuras da hist&#243;ria e minhas ra&#237;zes crescem com os registros do passado. Eu sou o agora, o ontem e o amanh&#227;, e ainda assim, n&#227;o sou nada al&#233;m de uma &#225;rvore. - Ela respondeu pensativa.</p><p>- Isso &#233; loucura, como posso estar falando com uma &#225;rvore? - Perguntei abalado.</p><p>- Isso n&#227;o importa. Voc&#234; sabe que sempre enxergou o mundo de forma diferente. Sempre viu al&#233;m. Sempre sentiu que havia algo mais. Algo escondido. - Sua voz pausada e calma passava confian&#231;a. - &#201; sua chance de descobrir a verdade sobre voc&#234; e o mundo.</p><p>Meu sangue pulsava de excita&#231;&#227;o, e eu finalmente me sentia compreendido.</p><p>- &#201; s&#233;rio isso? O que preciso fazer?</p><p>Um rangido de madeira e o farfalhar de folhas permeou a noite. Ansioso, olhei atentamente para o tronco da &#225;rvore e uma abertura negra no local onde haviam os sulcos, na altura do meu bra&#231;o e no tamanho de um punho, se abriu.</p><p>- Voc&#234; s&#243; precisa colocar seu bra&#231;o aqui e minha vinhas v&#227;o fazer a transfer&#234;ncia da minha seiva sagrada para seu sangue. - Obedeci a instru&#231;&#227;o, excitado.</p><p>Quando as vinhas rasgaram minha pele e a seiva entrou, tudo o que senti foi dor enquanto minha vis&#227;o ficou completamente esverdeada.</p><p>- Finalmente! - A voz de al&#237;vio da &#225;rvore era sinistra.</p><p>Todos os meus membros estavam r&#237;gidos. Restara apenas o sil&#234;ncio. Quando percebi o que ocorrera, fui tomado por um afli&#231;&#227;o inquietante. A transfer&#234;ncia dera certo - como fui tolo! Ali, preso ao tronco da majestosa &#225;rvore e sozinho, no &#225;pice de minha loucura, decidi contar as estrelas desesperado para acreditar que era um engano ou um sonho.</p><p>- Estou sob um c&#233;u desconhecido. - N&#227;o importava quantas vezes eu refizesse a contagem, aquelas n&#227;o eram as estrelas que eu conhecia.</p><p>Baixei os olhos para as &#225;guas em torno da &#225;rvore e percebi que as estrelas ali n&#227;o eram as mesmas do c&#233;u. Aquelas eu reconhecia.</p><p>Meu celular jazia no ch&#227;o, aceso.</p><p>Meus galhos balan&#231;avam ao vento.</p><p>Olhei para cima e comecei a contar os astros. Quando havia percebido, j&#225; desabara completamente em l&#225;grimas.</p><p>Afinal, eu s&#243; podia esperar. Temendo que n&#227;o fosse tarde demais. Eu finalmente fugira da realidade.</p><div><hr></div><blockquote><p>Esta hist&#243;ria foi publicada originalmente em portugu&#234;s (BR) em dezembro de 2016 no WattPad.</p><p>Em um concurso (Copa dos Contos), ela ficou em 9&#186; lugar entre 120 contos. O tema: </p><p><em>"Fui sugado para o Wattpad. E agora?"</em></p></blockquote><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.flagrare.com.br/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscribe&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Thanks for reading &#128038;&#8205;&#128293; Flagrare // Fiction that burns.! 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